26 fevereiro, 2021

Pandemia intensifica fluxo que corre na contramão do dinheiro físico

Seguindo a tendência de países de primeiro mundo, o Brasil apresenta cada vez menos resistência a transações online. A princípio, esse movimento está sendo orquestrado pelo setor do comércio eletrônico, ou e-commerce, mas se apresenta cada vez mais em outros setores. Para ilustrar esse ponto, basta analisar um levantamento feito pela Digital Market Outlook, publicado em 2018. Segundo a pesquisa, as nações que obtiveram mais receita, em média, por usuário foram:

  • Estados Unidos, com US$ 1.952,00.
  • Reino Unido, com US$ 1.639,00.
  • Alemanha, com US$ 1.101,00.
  • França, com US$ 1.010,00.
  • China, com US$ 634,00.
  • Espanha, com US$ 601,00.
  • Itália, com US$ 407,00.
  • México, com US$ 134,00.
  • Brasil, com US$ 123,00.
  • Argentina, com US$ 118,00.

Notando que o Brasil compõe a minoria de países dessa lista que não fazem parte da elite econômica global, fica claro que o perfil do consumidor médio local tem interesse por tecnologia. Essa teoria foi, posteriormente, confirmada pela Accenture, uma empresa de consultoria holandesa.

Um estudo da companhia feito com quase 48 mil pessoas em 27 países, incluindo o Brasil, mostra que os correntistas locais estão entre os mais abertos a utilização de novas tecnologias. As informações indicam que, por aqui, somos pioneiros em relação a novas ferramentas para transferir dinheiro, à frente de bandeiras como França, Israel e Japão.

Essa vontade floresce, muitas vezes, em profissões pouco convencionais, que buscam driblar dificuldades burocráticas.

O novo para o novo

Um levantamento feito pelo Banco Central mostrou que, de janeiro a abril de 2020, mais dinheiro foi transferido de fora para dentro do Brasil do que o contrário.  Em números absolutos, foram US$ 1,06 bilhão nos quatro primeiros meses do ano, 9% a mais que a média mensal de 2019.

A explicação para isso é plural, e reflete mudanças em diversos mercados brasileiros. A começar por empreendedores que, visando aproveitar a alta do dólar, vendem suas participações em corporações para investidores estrangeiros. Porém, o Google pode ter uma parcela significativa de influência nesses números.

O colosso da tecnologia identificou um crescimento de 25% nos pagamentos de AdSense para o Brasil entre março e maio. Esses valores são pagos a criadores de conteúdo, sejam eles de blogs, sites ou canais no YouTube, conforme a receita gerada por eles com anunciantes.

A pandemia serviu como impulso para esse segmento. Após o início da quarentena, 91% dos usuários brasileiros aumentaram seu tempo de consumo no site, segundo a Talkshoppe. Além disso, superando o Facebook, o Instagram, a Netflix e o TikTok, o YouTube se firmou como a plataforma favorita dos consumidores locais.

Além disso, alguns microempreendedores também contribuíram para essa mudança. Serviços prestados por freelancers a empresas estrangeiras, como desenvolvedores e programadores, ganharam mais espaço no mercado internacional, uma vez que o real se desvalorizou continuamente.

Espaço para novos planos

Compreendendo que o mercado em torno do dólar está em alta no Brasil, alguns bancos passaram a estudar a possibilidade da criação de contas em moedas estrangeiras para seus clientes. Antes, essa atividade era exclusiva para casas de câmbio, embaixadas e algumas outras instituições.

Porém, essas mudanças ainda são reféns da nova lei cambial, aprovada pela Câmara dos Deputados e que está em votação no Senado Federal. Além disso, o plano do Banco Central é fazer a flexibilização desse segmento gradualmente.

Pessoas físicas e o mercado de ações

Fortalecendo um fenômeno que ocorria desde 2013, a pandemia também intensificou a busca de pessoas físicas por investimentos de curto prazo, aumentando, assim, o volume de transações internacionais por aqui. Conforme dados disponibilizados pela B3, a bolsa de valores oficial do Brasil, 2020 registrou mais de 480 mil pessoas que experimentaram os day trades até agosto. Ao longo dos anos, isso representou:

  • 144% de 2013 a 2018.
  • 108% de 2018 a 2019.
  • 100,6% até agosto de 2020.

Esse crescimento significativo também simboliza o aumento do interesse de brasileiros pelo tema. Segundo o Google Trends, ferramenta que mapeia as buscas feitas na plataforma, o termo “day trader” foi muito buscado em diversos estados do país.

A baixa histórica da taxa SELiC também foi fundamental para o aumento de pessoas físicas entrando para esse mercado. Enquanto esse valor chegou a 14,25% em 2016, em 2020 atingiu apenas 2%. Sendo assim, aliado ao surgimento de plataformas de investimento, o número de indivíduos interessados nessa área cresceu ao longo dos anos.

O aumento da confiabilidade

É importante visualizar o potencial que o Brasil possui no ramo de transações online, seja por interesse em investimentos ou, simplesmente, em compras. Em julho de 2014, o G1 publicou uma matéria intitulada “67% dos brasileiros não fazem compras pela internet, diz pesquisa”, baseada em estudos feitos pela multinacional Mintel. 

Em abril de 2018, o cenário praticamente virou do avesso. Em outra pesquisa, dessa vez da PricewaterhouseCoopers (PwC), foi constatado que, em média, sete em cada dez brasileiros compram online pelo menos uma vez por mês. Isso pode indicar que, seguindo sua própria linha evolutiva, o Brasil tem potencial para subir cada vez mais na lista de países com mais transações online no mundo.